Friday, October 28, 2005

E se...

...no dia em que Adão, feito primata, desceu da segurança dos seus ramos, Deus tenha adormecido após o esforço criativo que os seus planos exigiram? Então nesse caso, Adão, peludo e ainda com ligeiras dores nas costas (de caminhar erecto), deambulou abandonado pelo olho divino que lhe deu vida. Atravessou o matagal e deu por si numa praia; assustado com a impetuosidade daquela coisa azul enorme que lhe surgia na frente (e que era o mar), fugiu para a selva, onde permaneceu a saborear suculentos frutos silvestres nunca antes experimentados. Tudo era novo, e dentro de si o medo e a curiosidade por umas vezes mediam forças, por outras juntavam-nas. Mas todo este "se" narrativo não é sobre Adão, ou não seria um "se".

Alguns milhões de anos antes do momento em que Adão desceu, hesitante, da sua árvore, um réptil marinho aproximou-se demasiado da costa. Sem querer, esta criatura com mais de dez metros deslocava-se em direcção a terra, e o seu corpo pantagruélico era trazido involuntariamente pela maré que, uma vez sob a forma de onda, violentava sem misericórdia a costa arenosa da praia. A criatura, nos limites da sua ferocidade, estava claramente assustada. Ocorreu-lhe, por momentos, na pequena imaginação decorrente de um cérebro menor, o que poderia acontecer se fosse parar à costa. A sua inteligência não foi suficientemente astuta para gerar mais do que este terrível pensamento, e por isso o medo tomou conta de cada pingo do seu sangue frio. Não obstante o receio inicial, a fera marinha deu por si sã e salva, na segurança e calor da areia. Esta sensação foi muito importante no desenrolar dos acontecimentos, pois o medo criado pelo perigo que correu no mar desapareceu e a criatura sentia agora novos cheiros. Queria desbravar este novo mundo que lhe era revelado. Contudo, havia um pequeno problema: não se conseguia mover sem algum esforço físico adicional. As suas barbatanas teriam também de servir de pás para se deslocar na terra. Arrastou-se na areia e viu um pequeno réptil que, estando faminto, ingeria a sua refeição herbívora sem dar conta do perigo que corria. Ora o animal marinho, recém-chegado a esta nova realidade, arrastou-se até lá e, auxiliado pela cortina de som provocada pela rebentação das ondas do mar, abocanhou de uma só vez o indefeso lagarto. Como era deliciosa aquela carne! Como sabia bem o gosto do sangue e ossos daquela criatura que simbolizava a novidade! Contudo, independentemente da maravilha que era a vida na terra, a criatura viu-se obrigada a regressar à água (mais uma vez o instinto apelou a tal procedimento), pois algo lhe transmitia que era necessário por motivos de sobrevivência. Mas este animal formidável acabou por regressar a terra muitas vezes após o primeiro contacto, e as eras passaram. As barbatanas mostravam agora poderosas garras, e a sua pele era agora escamada e dura como um rochedo. O seu pescoço, outrora longo, havia diminuído drasticamente, enquanto que as suas mandíbulas se tinham prolongado em mortais fileiras de dentes. Até que houve um dia em que, auxiliado pela força que acumulou durante incontáveis anos de evolução, o animal nadou pelos rios acima, e nas suas margens encontrou um lar. Nasceu assim o venerável rei lagarto, o crocodilo.


Voltemos ao momento em que abandonámos o pobre Adão, cujo criador estava adormecido após os dias laborais que mantiveram todas as suas forças ocupadas. Ora o ex-primata percorreu a selva, erecto, e foi dar ao rio que a atravessava. Assustou-se com o seu próprio reflexo mas rapidamente a sede se revelou imperativa, e lá sorveu a fresca água que as suas escuras mãos, em concha, reuniram. Aqui começa o "se". Era o fim da tarde, o sol estava prestes a desaparecer, e o céu estava pintado de um púrpura que fazia de toda a Criação um sonho. Enquanto Adão bebia, o rei lagarto entrou no rio. Estava na hora de comer. Da outra margem, no meio da folhagem que o camuflava, avistou aquela peluda mas rechonchuda criatura que grunhia e se espantava com tudo à sua volta, mas que não reparara na sua presença, continuando inocentemente a saciar a sua sede. O réptil nadou com a sua paciência habitual. Entretanto, Adão (o venerável Pai de todos nós) tinha reparado que, se esperasse um pouco, a água acalmava e poderia ver o seu reflexo uma vez mais. Quando o conseguia, o instinto levava-o a tocar naquela projecção visual da sua primitiva animalidade, e acabava por ter de esperar novamente. Perplexo, embrenhado naquele triste jogo que o fascinava, não deu pelo aproximar do monstro, e nunca chegou a perceber que parte da ondulação provinha do movimento assassino do predador que o seleccionara. Numa fracção de segundo, o enorme crocodilo ergueu-se da água e, num salto decisivo, abocanhou a cabeça e ainda metade do tronco de Adão, com um braço incluído no processo. Rebolou na água com o corpo do Homem cravado nos afiados dentes e em seguida levou-o até às profundezas, com o intuito de afogar a vítima prisioneira, para depois devorá-la durante o tempo necessário. Assim que estava comprovada a certeza da inércia do Homem, o rei crocodilo levou-o para a margem, onde a água não era tão funda, e banqueteou-se na caçada como se não houvesse amanhã, devorando a carcaça que na sua irracionalidade momentânea perdera a noção das coisas e via-se agora ali, morta, esvaindo em sangue. A evolução do Mundo estava agora para sempre alterada, pois a criatura que o iria controlar provara que não era digna de tal confiança. Adão tinha sido expulso do Éden.


Ao Eça (e com uma nota de agradecimento ao Solignator)

3 Comments:

Blogger Solignator said...

Curioso como da sobrevivência de Adão, o primeiro primata erecto (pai dos que darwinistas) e/ou criação final de deus (pai de todos os cristãos), dependia o futuro poder da Terra. Dele e de muitos “ses” por cumprir e por adivinhar, se tornou o mundo naquilo que hoje se conhece.
Caso Adão caísse no "se" que destacas, sendo então devorado pelo teu animal de eleição – o crocodilo escamoso, verde, de sorriso alargado, perigoso e horreptilante — tudo aquilo que temos como História mudaria. Que eficiente carrasco do Homem esse rei dos lagartos para um crime do não cumprimento do destino desconhecido, depois de outro rastejante ter provocado a expulsão de Adão do Paraíso. Um conluio reptiliano contra a Humanidade é algo a dar importância. Qual Homem da Conspiração, qual quê...
Seria bem provável, que numa outra dimensão isso tenha acontecido — pois,...sim, claro: uma dimensão onde existem agora humanóides com traços de lagarto e... com o Conan, o Bárbaro (lembrar a série de desenhos animados onde o mundo de Conan era governado por répteis).

Era também muito provável que não houvesse Religião hoje...nem nunca tivesse havido, porque morria Adão, esse que é a maior obra de deus pelo bom e pelo mau — sim, porque o homem é imperfeito tal como deus: diz-se que este foi imagem para a criação do primeiro.
Morria esse suposto pai de todos nós, que não é mais do que filho da imaginação ou da necessidade de alguém de dar um nome ao primeiro dos humanos, morrendo com ele a maior prova cristã da existência de um ente superior, morrendo com ele também a resposta à pergunta última (“Porque estamos aqui?”) e a necessidade de fabricar Bíblias, Alcorões ou Princípios Budistas, para nos aproximarmos dessa resposta.
Morria Jesus, o verdadeiro conceito de salvador, ou melhor...não existiria, já que esse não poderia descer à terra, num corpo de homem, para ensinar a frase publicitária milenar do Cristianismo (“Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”). Logo, não existiria Cristianismo, porque não existiriam os elementos essenciais que o fundamentam. Nem existiram outras religiões — humanas, pelo menos — já que o Adão, como único ser racional na Terra, deixaria de existir para se questionar e inventar pilares de fé. No fim, nem eu estaria aqui a escrever este texto.

12:52 PM  
Blogger Woland said...

Ora nem mais. Aliás, eu defendo a corrente filosófica cujo argumento assenta no pressuposto de que esse rebelde do Conan o bárbaro seria imediatamente abocanhado por um crocodilo assim que tentasse combater as forças do 'mal'.

Nesta hipótese, o Mundo seria governado pelos predadores de ocasião (dependendo do lugar, reina o mais forte), e a evolução segundo a selecção natural de Darwin continuaria a ser lei. De resto, coeteris paribus salvo a hipótese de as espécies evoluirem de modo diferente na ausência do 'homo sapiens sapiens'...ou hoje em dia, convergimos para o 'homo untensilis'.

"If God created us in his own image, we have more than reciprocated" (Voltaire)

1:06 PM  
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