Noir
Sinto-me um pouco fora de mim. Não de exaltação, nem de depressão. Apenas fora do meu corpo. Penso no que alguém escreveu sobre a própria escrita que praticamos: "Poderá ser um desejo inconsciente, mas nunca se escreve para ninguém. E existe sempre alguém que lê…". Sim, desta vez escrevo para mim, mesmo sabendo que outros poderão vasculhar estas imagens espelhadas de alguém que talvez não conheçam. Desta vez, escrevo para mais tarde ler (sobretudo à noite) este texto que dedico a mim próprio. Mas não é isso, escrever? É suposto ser a projecção textual de tudo o que julgamos ser, e também do que realmente tentamos ser. Por isso mino desde já o texto, tentando expressar-me de um modo que só eu compreenderei realmente o que senti neste momento. Mesmo que queira inconscientemente que outros leiam, a partir de agora está salvaguardada a remota hipótese de me perceberem. Esmerar-me-ei no código que será, espero tão ambíguo e labiríntico quanto possível. Resta ao leitor a sua interpretação, resta-lhe embalar nos seus próprios braços esta minha semente. Mas na verdade tudo isto me é indiferente...sobretudo desta vez. Penso em mim, sentado no meu quarto escuro, acompanhando nocturnas melodias com o pulsar do teclado. Penso num cigarro imaginário que com dedicação e prazer enrolei, e que jaz num cinzeiro fictício que o acolheu, esperando que eu o levasse novamente aos lábios, para o consumir como um amante inconsolável. Pondero seriamente sobre a criatura que observo a escrever estas palavras, este ser que tão friamente pesa compromissos numa balança, qual Thoth personificado. Avalio também as horas. Imagino possibilidades para resolver a questão da chuva que cai lá fora, questionando-me se é real. Olho pela janela, observo a noite, e sei que nunca vi um céu tão azul. Pouco me importa, tenho a memória, e sei que sem ela seria novamente um animal grotesco em busca de coerência. Como em tempos já fui.
Regresso por momentos à ilusão de que a vida dará o filme, no fim...quando na verdade não há filme. Nós vivemos o rolar da fita. Não há fotogramas seguintes, e não há fotogramas acumulados para trás, porque nós temos a tesoura que os corta. No entanto, temos também os olhos que vêem o que os pés pisaram. Penso em fazer planos, quando na verdade nem preciso de os fazer. Por vezes, eles fazem-se. E aí sei que sou feliz. A felicidade é uma arma acolhedora. No mínimo, serei poeira. No máximo, serei poeira universal. Na verdade, somos tudo porque tudo reside em probabilidades. A probabilidade revestida de ilusões tanto pode ser perigosa como o desabrochar de toda uma fortuna. A ilusão é o primeiro de todos os prazeres. Por vezes saboreio-a. Raios, por vezes quase a inspiro com tanta força que poderia dar-me por satisfeito e morrer de seguida.
Seja como for, esta é a vida. A rosa que deixámos cair porque alguém não apareceu, e cansámo-nos de esperar. Isto não é triste, nem dramático. É a ilusão. Fazemos outros planos. Nem há que pensar na hipótese em que a planta não tinha sido inutilizada. É como não ignorar a dor quando cortamos demasiado a unha, até sentir a vibração da carne ainda inexperiente que veio mais cedo ao mundo. Mesmo assim, ainda cheio o cigarro que não existe. Pego nele e fumo-o uma última vez, antes de o sepultar no chão (o cinzeiro não existia, lembras-te?). Olho para dentro do café, através do vidro e como na música, e sozinho (para maior efeito), danço até ao fim do amor. Os segundos são os óregãos da vida. Had! the manifestation of Nuit! Não danço, todavia, uma dança qualquer. Em redor da fogueira agito-me ao sabor da valsa que me foi dedicada. Quando ouvimos a valsa sabemos que não interessa o sentido, apenas o fogo é real. Se nos aproximarmos demasiado, queimamo-nos. Se nos afastarmos demasiado, passamos frio. Não existe uma distância óptima. Existem apenas distâncias. Depende da intensidade da dança. Mas dancemos até ao fim. E quando a música terminar, apaguem-se as luzes.
Regresso por momentos à ilusão de que a vida dará o filme, no fim...quando na verdade não há filme. Nós vivemos o rolar da fita. Não há fotogramas seguintes, e não há fotogramas acumulados para trás, porque nós temos a tesoura que os corta. No entanto, temos também os olhos que vêem o que os pés pisaram. Penso em fazer planos, quando na verdade nem preciso de os fazer. Por vezes, eles fazem-se. E aí sei que sou feliz. A felicidade é uma arma acolhedora. No mínimo, serei poeira. No máximo, serei poeira universal. Na verdade, somos tudo porque tudo reside em probabilidades. A probabilidade revestida de ilusões tanto pode ser perigosa como o desabrochar de toda uma fortuna. A ilusão é o primeiro de todos os prazeres. Por vezes saboreio-a. Raios, por vezes quase a inspiro com tanta força que poderia dar-me por satisfeito e morrer de seguida.
Seja como for, esta é a vida. A rosa que deixámos cair porque alguém não apareceu, e cansámo-nos de esperar. Isto não é triste, nem dramático. É a ilusão. Fazemos outros planos. Nem há que pensar na hipótese em que a planta não tinha sido inutilizada. É como não ignorar a dor quando cortamos demasiado a unha, até sentir a vibração da carne ainda inexperiente que veio mais cedo ao mundo. Mesmo assim, ainda cheio o cigarro que não existe. Pego nele e fumo-o uma última vez, antes de o sepultar no chão (o cinzeiro não existia, lembras-te?). Olho para dentro do café, através do vidro e como na música, e sozinho (para maior efeito), danço até ao fim do amor. Os segundos são os óregãos da vida. Had! the manifestation of Nuit! Não danço, todavia, uma dança qualquer. Em redor da fogueira agito-me ao sabor da valsa que me foi dedicada. Quando ouvimos a valsa sabemos que não interessa o sentido, apenas o fogo é real. Se nos aproximarmos demasiado, queimamo-nos. Se nos afastarmos demasiado, passamos frio. Não existe uma distância óptima. Existem apenas distâncias. Depende da intensidade da dança. Mas dancemos até ao fim. E quando a música terminar, apaguem-se as luzes.


2 Comments:
também eu estou... ausente de mim mesma
are you reall luicfer
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